Provocação Adulta
Plum Sykes
reflete sobre as opções que mulheres de 30 e muitos têm quando resolvem mostrar
a própria pele.
Na primavera de 2008, de
pé no ateliê do estilista Matthew Williamson em Mayfair, senti como se fosse
desmaiar ou parar de respirar – tudo por causa de um vestido. O cenário: Mr.
Williamson, então estilista-chefe da Pucci, estava fazendo para mim uma peça couture que usaria no baile do Met
daquele ano. Matthew havia imaginado um vestido ultrarrevelador, eu queria
cobertura total. Ele argumentou que eu tinha um corpo ótimo e podia mostra-lo.
Retruquei que aos 38 anos, ainda que em forma, meu rosto era velho demais para
acompanhar um corpo seminu em público. Não sou uma das deusas do red carpet de Matthew, como Keira
Knightley ou Sienna Miller, que podem usar seus tufos de chiffon de forma tão
casual quanto um par de jeans. Observando atentamente Matthew com alfinetes na
boca, uma expressão inflexível no rosto, me perguntei como poderia escapar
dessa.
Não me entenda mal: nem
em meus mais loucos sonhos imaginei que teria um vestido Pucci feito sob medida
(na verdade não tenho sequer um sem ser sob medida, de tão caros que são!).
Depois de muita discussão, sem que nenhum dos lados fizesse concessões,
finalmente entramos num acordo: consegui um vestido rodopiante que ia até o
chão, de jérsei estampado, com mangas gloriosas e generosas e decote alto. Ele
ganhou as costas nuas. Admitiu que “é melhor mostrar mais as costas que a
frente à medida que você envelhece”. As costas do vestido eram lindamente
recortadas em forma oval perto da base da coluna, e Matthew adicionou uma faixa
cravejada de cristais Swarovski exatamente na altura da alça do sutiã para que
eu pudesse usar uma lingerie sustentadora sob o vestido (a reclamação da
maioria das mulheres em relação a vestidos com costas nuas é que não podem usar
sutiã). Amei usar meu Pucci na festa porque era ilusoriamente discreto – as
pessoas só percebiam que era muito mais chamativo do que haviam imaginado
depois que eu virava de costas.
Vestidos com decote
traseiro vão dominar o outono no Hemisfério Norte. Donna Karan fez uma coleção
quase toda “sem costas”. Um incrível modelo de cetim de seda, que parecia
líquido se sobressaiu na Ralph Lauren. Já os dramáticos longos de Zac Posen,
com barras varrendo o chão, foram recortados em todos os lugares certos. Na
Dior de Galliano não houve quem não reparasse nos vestidos com um sexy decote
na forma de fechadura. E os evening
dresses com costas nuas de Donatella Versace são um triunfo do gosto
moderno e da construção clássica – honestamente, entraria em uma sala “de ré”
se estivesse usando um.
Ainda que mais apropriado
para minha idade, usar vestidos com decote traseiro demanda certos cuidados. É
preciso ter as costas certas – nem muito carnudas, nem ossudas demais. Como se
trata de uma pele que não vemos todos os dias, uma vigilância extra é
necessária para garantir que vale a pena mostra-la. “A aparência da pele nas
costas depende da saúde geral do corpo”, explica a dermatologista Lisa Airan,
completando que peelings suaves
melhoram a aspereza. Já minha amiga e make-up artist Jemma Kidd diz que quando
usa um vestido sem costas passa antes um iluminador corporal que faz sua pele
brilhar maravilhosamente – ela recomenda o JK Show Stopper, de sua própria
linha.
Confesso que estou feliz
com essa tendência backless nas
passarelas. Sei que minhas costas são desnudáveis. Elas são tonificadas,
fortes, definidas. Os músculos ondulam de forma atraente, e a postura é totalmente
ereta. Mas antes que meu convencimento comece a irritar as leitoras de Vogue,
uma revelação: essa boa forma é resultado de muito sofrimento. E não estou
falando aqui de exercícios físicos, mas sofrimento real. Desde os 31 anos tenho
terríveis dores nas costas. Lembro que um rompimento traumático com um namorado
vil em 2001 e o começo de uma pequena dor no lado direito da lombar
coincidiram. Meu médico prescreveu anti-inflamatórios e garantiu que a dor iria
embora sozinha. Ela não foi, mas continuei achando que iria – afinal, nunca
havia ficado doente nem ido ao hospital em toda minha vida. Mesmo com a dor me
importunando cada vez mais durante o ano seguinte, não procurei tratamento.
Como boa britânica, fui criada acreditando que uma ida ao médico só era
necessária em caso de morte iminente.
Comecei a escrever meu
primeiro romance e, à medida que os meses passavam, a dor na lombar se estendeu
por todo o lado direito das costas, chegando ao ombro e depois até o pescoço.
Tinha dores de cabeça logo acima do olho direito. Um fisioterapeuta disse que o
latejamento era causado porque eu ficava muito tempo sentada à escrivaninha.
Achei que era nonsense – como o
simples ato de sentar poderia me machucar? Ignorei o diagnóstico e continuei a
passar dez ou 12 horas por dia escrevendo o livro. Quando as dores ficavam
intoleráveis, dormia por duas horas. Aí me levantava e começava a escrever
novamente.
Avancemos no tempo até
2006, com mais um romance e uma gestação, e minhas costas estavam em
frangalhos. Ao final da turnê de lançamento, havia autografado tantos livros
que, além das dores nas costas, meu ombro estava inflamado e com lesão por
esforço repetitivo. Não conseguia nem segurar uma caneta e finalmente procurei
um médico. Mas como estava grávida não pude ser examinada nem tratada.
Lembro-me de ir à festa do meu segundo livro em Londres, grávida de quatro
meses, com o braço direito em uma tipoia para amenizar a dor no ombro, e
medicada com o único e mísero Voltaren que minha obstetra concordou em
prescrever depois de eu implorar. O
restante da gravidez foi desagradável, para dizer o mínimo. Acordava com dor
nas costas e ia dormir com o pescoço latejando. Frequentemente começava o dia
me deitando no chão e chorando por 20 minutos. Disseram-me que a dor desapareceria
depois de eu dar à luz. Não desapareceu. Na verdade, o esforço para amamentar e
segurar um bebê piorou as dores e a inflamação nos ombros e no pescoço.
Busquei todos os tipos de
tratamento: hipnose (funcionou por três dias), acupuntura (funcionou por três
minutos), massagem profunda do tecido (funcionou durante a massagem),
reflexologia (não funcionou nem durante), quiropraxia (não funcionou, apesar
dos violentos sons de estalos), osteopatia (por US$ 250 ele me disse que se eu
chorasse com mais frequência teria menos dores nas costas), curandeiro
(concluiu que trabalhar na Vogue era a causa das dores nas costas). Houve duas
visitas à sala de cirurgia para injeções de cortisona na coluna cervical. A
primeira funcionou, a segunda nem tanto. Desesperada – e agora mãe de primeira
viagem –, consultei um grande especialista de pescoço em Londres. Apesar da
agonia pela qual estava passando, ressonâncias magnéticas mostraram que não
havia nada errado com minhas costas. A única diferença entre mim e qualquer outra
pessoa era que minhas costas e meu pescoço eram “muito magros”. Sendo alta como
sou, o esforço de me manter em pé era demais para meus fracos músculos, e eles
estavam constantemente estressados, o que causava inflamação e a interminável
dor. O especialista disse que a única maneira de melhorar era fazer exercícios
para fortalecer os músculos. Ele sugeriu pilates, mas avisou que deveria ser
combinado com fisioterapia se quisesse realmente resolver o problema. E
advertiu que o maior perigo era escrever ao computador. Sentar por longos
períodos enfraquece os músculos do tronco – que deveriam manter-me em pé –,
aumentando a pressão sobre os músculos das costas. Finalmente aceitei que os
dias de maratonas de 12 horas em frente ao computador haviam terminado. O fisioterapeuta
não estava falando nonsense.
Comecei o pilates. Em
dois meses minha lombar estava muito melhor, porque a técnica fortalece os
músculos abdominais com extrema rapidez. Logo fiquei viciada. Pilates não serve
apenas para fortalecer, é também viciantemente relaxante e energizante. E traz
um feliz subproduto: minhas pernas, braços e barriga começaram a ficar
tonificados, no lugar do meu velho estilo “pele e ossos” de outrora. Dois anos
depois estou bem mais forte e em geral sem dor, mas a manutenção constante é
necessária. Faço duas sessões de pilates por semana, numa clínica com
profissionais especializados em fisioterapia, e ando a cavalo com a mesma
frequência (cavalgar é excelente para fortalecer tronco, pernas e braços).
Nunca me sento em frente
ao computador por mais de 30 minutos sem levantar e alongar e contratei uma
assistente que digita enquanto dito. Tudo isso custa uma fortuna, mas ainda
assim é mais barato estar bem que doente.
Agora, quando olho para
minhas costas no espelho, em vez de enxergar uma estrutura fraca e frágil, com
ombros curvados e escápulas saindo em ângulo reto como asas de frango, vejo
ombros retos e suaves, seguros por fortes músculos trapézios. Posso vestir
quantos vestidos sem costas quiser, mas a melhor coisa é poder pegar minha
filha de 2 anos sem pestanejar e andar pelas ruas com ela pendurada no pescoço.
(este depoimento de Plum Sykes representa a realidade de muitas mulheres. procure fazer Pilates ou outra atividade física com um bom profissional.
beijos, Lausi)

